terça-feira, 16 de novembro de 2010

Into the Wild

Mude radicalmente de estilo de vida e comece a fazer coisas que sequer imaginava. Seja audaz. São demasiadas as pessoas que se sentem infelizes e que não tomam a iniciativa de mudar sua situação porque se condicionaram para aceitar uma vida baseada na estabilidade, nas convenções e no conformismo. Talvez pareça que tudo isso proporciona serenidade, mas na realidade não há nada mais prejudicial para o espírito aventureiro do homem que a ideia de um futuro estável. O núcleo essencial da alma humana é a paixão pela aventura. A felicidade de viver provém de nossos encontros com experiências novas e, não há maior felicidade que viver com horizontes que mudam sem cessar, com um sol que é novo e diferente cada dia. Se quer obter mais da vida, deve renunciar a uma existência segura e monótona... seria uma pena não aproveitar este momento para introduzir câmbios revolucionários em tua existência... a felicidade está aí fora, simplesmente esperando que você a agarre. Tudo que tem a fazer é um gesto e alcançá-la. Seu único inimigo é você mesmo. Não pense duas vezes.

Alexander Supertramp

O Sertão tem belezas que não dá pra contar num folheto de cordel

A florada se estende colorido
Às margens de todos os caminhos
Povoados por tantos passarinhos
Que dos ninhos do tempo vão surgindo
Aparecem os raios reluzindo
Entre as bordas desse imenso painel
O gigante galope do corcel
Que na copa do céu vive a passar
O Sertão tem belezas que não dá
Pra contar num folheto de cordel

Cantador se inspira e o verso vai
Desenhando estrada e pondo cor
No lugar aonde vai um cantador
O amor versejado lhe atrai
Vem do Alto e sobre ele cai
Relevando o brilho do anel
Referendo a todo menestrel
Que na terra que canta faz brilhar
O Sertão tem belezas que não dá
Pra contar num folheto de cordel

Abdias Campos 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Brasília cor-de-caganeira

O tempo voa. Sempre escutei meus pais dizendo isso todo final de ano que passávamos na casa dos meus avós. Agora, aos 24 anos, sou eu quem repito o ritual. E o curioso é que cada ano passa mais rápido que o anterior. O ano passado se foi como um foguete, esse, como um meteoro. Por mais que se tente retardar o tempo, ele avança para todos, invariavelmente. Para vencermos a nostalgia do passado é que guardamos as lembranças. Nesse sentido, não há nada que se compare com as memórias da infância.
Lembro-me perfeitamente das viagens na Brasília cor-de-caganeira (era exatamente assim que chamávamos). Todo janeiro – isso era tão sagrado como fazer churrasco aos domingos – após passarmos o natal e o réveillon na casa dos meus avós no interior de Santa Catarina, íamos (conjuguei o verbo no plural porque meu padrinho também nos acompanhava) veranear em Itapema, no litoral do estado. Do extremo oeste, abeirando a fronteira com a Argentina, até o Oceano Atlântico, eram nove horas de viagem. Imaginem a odisseia para uma criança de dez anos.
Uma semana antes de chegar o dia, a euforia já havia tomado a casa. Os dias custavam mais a passar e tudo que deixávamos de fazer, sempre acabava com a desculpa que foi devido os preparativos da viagem. Esse momento era a realização familiar. Sair do interior e ver o mar, sentir a aguá salgada e a areia gelada era, indubitavelmente, as melhores férias que alguém poderia vislumbrar.
Na véspera, papai parafusava o bagageiro no teto da Brasília. Levávamos tudo que se possa imaginar: prancha de surf de isopor, cadeiras de sol, caixa térmica para cerveja, bola de futebol, etc. Era tanta bagagem que tínhamos, meu irmão e eu, que nos apertar no banco de trás com as malas que não couberam em cima. Depois de equilibrado o entulho (acho que esse é o nome mais apropriado), papai enrolava uma lona amarela em caso de pegarmos chuva no caminho. Mamãe acordava 15 minutos mais cedo e preparava bisnaguinhas para irmos comendo durante o percurso. Estava escuro ainda quando a família Buscapé partia.
Engraçado que me lembro de muitas coisas da minha vida, inclusive, histórias muito mais interessantes sobre minha infância. Mas devo reconhecer, a Brasília cor-de-caganeira marcou época.

Impossible is nothing!

"Impossible is just a big word thrown around by small men who find it easier to live in the world they've been given than to explore the power they have to change it. Impossible is not a fact. It's an opinion. Impossible is not a declaration. It's a dare. Impossible is potential. Impossible is temporary. Impossible is nothing."
                                                                                                         Mohamed Ali

domingo, 7 de novembro de 2010

Atenção, gravando!

- Jonatan, imagina se tua vida fosse parar no cinema, qual tipo de filme tu achas que as pessoas pagariam ingresso para ver?
Foi assim que Ariel, meu amigo portenho, convenceu-me a acompanhá-lo a Machu Pichu por uma via alternativa. Consideramos os fatores e decidimos que “nosso filme” ganharia mais aventura se renegássemos o trem convencional e assomássemos a pé até a antiga cidade Inca. Em vez de camarote, comes e bebes, iríamos por nossas pernas à prova pelos próximos cinco dias, agregando assim, um pouco mais de adrenalina ao roteiro final.
Isso ocorreu em fevereiro de 2007. Desde então, passei a acreditar que alguém invisível estaria me acompanhando com uma filmadora e gravando todas minhas ações. No final, tudo seria editado e lançado na forma de um longa-metragem. Como diretor geral e único roteirista, seria eu o responsável exclusivo pelo sucesso ou fracasso do filme.
Semana passada li em algum lugar a mesma apologia em relação ao filme das nossas vidas. O texto terminava com a mesma pergunta: “qual filme você acha que as pessoas gostarão de assistir?”. Ao reler a frase que tanto me inspirou alguns anos antes, reformulei meu pensamento:
- Não estou nem aí para os telespectadores!
Nenhuma decisão deve ser tomada pensando neles.Gostem ou não do meu filme, não devo nenhuma satisfação a nenhum patrocinador, inclusive, o financiamento do projeto é inteiramente meu, portanto, pouco me importa se alguém irá ou não ao cinema vê-lo. O mister é seguir meu instinto, a bilheteria é mera consequência. Oxalá que vá alguém!

sábado, 6 de novembro de 2010

Proclamación del Ejército Zapatista de Libertación Nacional (EZLN) - Chiapas/ México

[...] Y cuentan los más viejos entre los viejos de las comunidades que hubo un tal Zapata que se alzó por los suyos y que su voz cantaba, más que gritar: Tierra y Libertad! Y cuentam estos ancianos que no ha muerto, que Zapata ha de volver. Y cuentam los viejos más viejos que el viento y la lluvia y el sol le dicen al compesino cuándo debe preparar la tierra, cuándo debe sembrar y cuándo cosechar. Y cuentam que también la esperanza se siembra y se cosecha. Y dicen los viejos que el viento y la lluvia y el sol están hablando de otra forma a la tierra, que de tanta pobreza no puede seguir cosechando muerte, que és la hora de cosechar rebeldía. Así dicen los viejos. Los poderosos no escuchan, no alcanzan a oír, están ensordecidos por el embrutecimiento que los impérios les gritan al oído. “Zapata” repiten quedo los pobres jóvenes; “Zapata” insiste el viento, el de abajo, el nuestro.
                                                                   Subcomandante Marcos, agosto de 1993.

Caixão não tem gaveta

Há poucas coisas que desprezo mais do que aquelas mensagens encaminhadas por e-mail. Vocês sabem quais. Todo mundo já recebeu uma miríade delas, se não mais. Abrimos nossa caixa de entrada e lá estão. Pode ser uma sequência de slides, com imagens de flores e cachoeiras, com um fundo musical melancólico, contendo algum pensamento distorcido de um filósofo ou líder espiritual, ou talvez, na forma de um texto mal-escrito, cheio de erros gramaticais, com alguma liçãozinha de moral no final. A verdade é que essa febre já se alastrou por toda rede virtual e, o pior de tudo, é que tem pessoas, e não são poucas, fissuradas em praguejar esses vírus. Alguns devem estar se perguntando por que toda essa indignação. Não procurarei argumentar meu ponto de vista, nem usarei os muitos casos de plágio, de frases mal alteradas, de estatísticas equivocadas a meu favor, apenas vou reafirmar, eu não gosto e ponto. Na verdade, nem motivo teria para estar aqui escrevendo essas palavras. É só selecionar e excluí-las diretamente, nem precisa abri-las. Opa! Mas então por que todo esse circunlóquio? O que quero dizer, contudo não disse ainda, é que minha intenção não é convencer o caríssimo e paciente leitor que essas mensagens não valem o tempo desperdiçado. Essa introdução foi feita para me auto-contradizer. Sabe quando você xinga um jogador de futebol, chama o técnico de burro e pede para substituí-lo e, antes de subir a plaquinha indicando sua saída, ele vai lá, dribla três, chuta no ângulo e marca um golaço? Isso aconteceu exatamente comigo. Eu, que nunca leio esse tipo de e-mail, que sempre os mando para a lixeira sem pestanejar, resolvi abrir um. O título me pareceu sugestivo: “Viver ou juntar dinheiro?”. É possível que muitos dos que estejam me lendo agora, também o tenham recebido, mas, enfim, preciso reconhecer que foi dele que adveio minha inspiração para escrever essa crônica.
Alguém sabe quanto uma pessoa economizaria, em quarenta anos, se deixasse de tomar um cafezinho por dia? A quantia de 30 mil reais! Não me propus a fazer nenhum cálculo para comprovar a veracidade de tal número – assim estava no e-mail, estou somente reproduzindo-o, mas tomamo-o como sendo mais ou menos preciso. Pensei comigo mesmo, eu que tomo quatro pingados diariamente, estou abrindo mão, quando chegar aos quarenta anos, de comprar minha casa própria. E segui a reflexão para mais além. Se parasse de comprar livros, não os técnicos que necessariamente utilizo, mas os romances que leio simplesmente pelo fato de gostar, eu provavelmente poderia somar à casa, um carro novo na garagem. Se largasse a rotina de sair aos finais de semana para tomar aquela cervejinha com a galera, poderia agregar uma piscina no jardim e fazer uma viagem completa pela Europa.
E por aí vai. É possível, seguindo essa lógica suicida, cortar um trilhão de gastos ditos “supérfluos”. Se apertar o cinto pra valer, não tenho dúvida que uma pessoa consiga construir um castelo antes de falecer (deduzindo que tal sujeito morra de causas naturais aos 120 anos de idade). Tudo bem, exagerei! Talvez não um castelo igual àqueles dos filmes hollywoodianos, mas certamente uma réplica bem feita. Mas pergunto-lhes, quem seria o animal irracional que viveria toda uma vida privando-se de pequenos prazeres para quando morrer deixar um império para os herdeiros, ou, na falta desses, construir uma pirâmide faraônica para ser enterrado junto com seu tesouro? Conheço pessoas doentes, compulsivas pelo trabalho, que sacrificam quase tudo pela carreira profissional, outras que são assaz mesquinhas, chamadas popularmente de mão-de-vacas, que se atravessam um rio a nado segurando uma nota de dinheiro, esta chegaria seca à outra margem, porém, mesmo nesses casos, desconheço algum louco o suficiente para abnegar toda uma vida, pensando na riqueza futura que acumularia. Mas ninguém disse para sacrificar todos os prazeres da vida, no e-mail só mencionava o cafezinho. Como sou extravagante por natureza, achei conveniente expandir a análise. O que quero asseverar e, justiça seja feita, essa é a mesma conclusão que chega o autor da mensagem, é que são as pequenas coisas que dão sentido a nossa existência, ou em outras palavras, caixão não tem gaveta, não é assim que rege o ditado?